Loyde

60/366

Loyde

Oficiais godélicos não se abaixam, essa é uma lenda contada e recontada em todos os bares sujos que vi nos portos que visitei.
Nunca acreditei que um homem são pudesse ficar parado, impassível, no meio de um tiroteio. Isso foi até eu conhecer um desses notáveis senhores e, claro, descobrir que são todos uns malucos.
Godel é como eles chamavam o azul profundo antes de nós chegarmos com nossos canhões e aeróstatos, nome bonito. A origem sintática é algo como Göd-eelm, morada de deus. A maior santidade para um godélico é aquele grande fractal nas fundações do palácio do triunvirato.
Lamentável.
Quando perguntei para Loyde, o tal que conheci, o porquê desse comportamento louco ele calmamente me explicou:
– É desconfortável, os homens não gostam, e acaba com o estilo dos saiotes.
Ri durante quarenta minutos após tal explicação.
Com mais bebidas e conversa fiada ele acabou perdendo a compostura e deixando claro alguns detalhes que passariam despercebidos por outros historiadores.
– É simples – Ele começou, com o sotaque forte dos nativos – Nos muros de uma fortaleza se abaixar pode salvar a sua cabeça de uma bala, na escotilha de um couraçado também, agora no convés ou em campo aberto, de que adianta? Quero dizer, a área de tiro não diminui nada para um atirador eficiente com um rifle preciso. Isso acabaria te atrasando na correria que é uma guerra. Acabaria com a moral dos homens ao ver seu superior de cócoras tremendo de medo. E, convenhamos, os saiotes estão ali para que meus bagos ao vento não sejam vistos por ninguém – Tomou um longo gole de seu Ale – Ainda que eles sejam, de fato, uma visão muito agradável.
Terminou a frase erguendo o copo e pedindo um brinde aos próprios bagos.
Sinceramente, eu brindei sorrindo.
Loyde acabou sendo mais um amigo que um guarda costas depois que o contratei. Sempre sorridente e sempre bêbado, o ex-marechal de campo era um excelente mercenário. Tinha conhecimentos finos de gastronomia e primeiros socorros.
Isso além de um gosto perverso por gritar ordens no clamor da batalha.
Passando pelo estreito de Via do Cristaleiro enfrentamos uma tempestade. Quando as primeiras válvulas começaram a fraquejar com a pressão vapor excessiva dos sistemas do Intocável tudo deu errado.
Um grupo de três corvetas de galé e meia de comprimento nos interceptou quando subíamos em busca de tempo mais claro.
Executamos um meio loop sem sucesso, tentamos um estol de badalo junto com um pré estol para engana-los. Não funcionou muito bem.
Loyde, que estava dormindo num primeiro momento, saiu do porão com olheiras fundas e uma cara de acabado. Levou meio segundo para entender o que acontecia, então saiu para o convés gritando ordens e tomando as rédeas da ponto-cinquenta.
O timoneiro e o capitão olhavam pela pequena janela de vidro sem entender como um homem sozinho berrava cinquenta ordens diferentes e cuspia oitenta e nove balas por minuto.
A arma externa vale notar, é montada de forma simples. Feita para enfrentar Calamares e outros animais que possam querer jantar o navio. Não tem nenhum tipo de blindagem para o atirador ou para o municiador. O importante é: Ela não estava nem perto do preparo necessário para enfrentar três navios piratas.
Com uma manobra de sorte do timoneiro escapamos da linha de tiro deles todas as oito vezes que eles investiram a descida em carga. O municiador e o atirador não saíram da ponte de comando em nenhum momento. Eu mesmo tive que buscar as caixas de munição para Loyde, que as esvaziava com um sorriso no rosto.
Na chuva de chumbo quente, das duas vezes que o timoneiro não foi rápido o suficiente, o mercenário se tornou novamente marechal de campo, não se esquivou em nenhum momento, nem fora atingido.
A primeira corveta explodiu.
Eu não tenho ideia de como ele o fez, nem se foi de fato planejado. Mas um mar de fagulhas inundou o céu. Provavelmente uma caixa de munição se incendiou e as explosões solidárias levaram as chamas ao paiol.
Não sei.
As outras duas fugiram desesperadas. Uma fumando a lateral direita, bem no repulsor.
A outra razoavelmente intacta.
Sobrevivemos e bebemos em honra do homem de saiote.
Acabo meu registro breve da minha estadia com um godélico dizendo que o ditado sobre seus oficiais se confirma um fato.
Todos conhecem, é claro, outro ditado sobre este notável povo.
“Se está perto o suficiente para ouvir nossos tambores, estás perto demais”.
A bateria de canhões de um cruzador, ou até mesmo de um forte, tem reputação lendária.
Reputação essa que eu espero nunca confirmar.
(Fragmento do diário do Contador de Histórias, tempo antes da grande corrida).

Posted in Uncategorized | Leave a comment

Psiconauta

61/366

Psiconauta

A chuva era rala, mas ainda enchia o saco.
Não estava exatamente frio, afinal eu estava de shorts e chinelo, e ensopado, e ainda suava bicas. O mundo era desfocado, eu imaginava olhar pelos olhos de uma mosca com a luz sendo filtrada pelas gotas d’agua presas nos meus óculos.
– Ah, que perda de tempo.
A aula tinha sido uma chatice em particular. O professor extremamente pedante tinha se perdido em pormenores anacronísticos da história da estampagem. “Sabe”, ele começou, “esse tipo de tecnologia nasceu em sessenta e três, mas temos um documento descrevendo o processo datado de trinta e três, se isso não é absolutamente incrível eu não sei o que é”.
Não sabia.
A saída dos fundos da faculdade da direto nos jardins da prefeitura com um belo lago. Ele é, normalmente, belo e florido com crianças correndo e rindo. Só que a chuva e a falta de energia davam uma pretidão sinistra a porra toda, de forma a me deixar desconfortável só como uma pretidão sinistra na porra toda deixaria.
– Ah, mas sessenta e três puta que pariu eu mereço.
O lago tinha um aspecto fosco engraçado, feito pelas pequenas ondas criadas da chuva, impedindo ele de refletir a fachada da prefeitura com sua imponente iluminação e bandeira ao vento.
Sem iluminação e sem bandeira, esta que deve ter sido arrancada – de novo – pela tempestade de mais cedo.
Não sei se pelos olhos mais que inúteis, pela minha pressa em pegar o ônibus, ou então pela maneira canhestra com a qual eu balanço os braços enquanto grito insultos eu não vi a merda do alçapão aberto.
E caí que nem tijolo de pedreiro burro em pé de mestre de obra.
Céu virou chão e devo ter rolado uns três ou quatro lances de escada. Fica difícil contar quando os degraus massageiam seu nariz com uma delicadeza alemã.
No final da descida um buraco, depois deste – sabe se Deus o porquê – havia céu. Numa inversão de referencial de gravidade eu quase vomito ao ser cuspido uns dois metros no ar. Então eu giro no topo da parábola, sinto a ausência de velocidade assim que a aceleração me puxa para baixo.
E eu como um monte de areia.
Não da para acreditar nos meus olhos sem óculos devido a miopia, com eles eu vejo tudo triplicado ou quadruplicado com as gotas de água. Então como eu vou explicar para mim mesmo que estou numa praia de areia dura e sol ardente.
– Ah, meu caralho…
Levanto incrédulo, tento contar os hematomas mentalmente, toco nas extremidades do meu corpo pra ver se elas estão aí ainda.
Tento me localizar mas não faz nenhum sentido.
Quando me dou por mim estou flutuando.
Não que eu tenha flutuado antes para saber a sensação, mas, eu tenho certeza que estou flutuando. Mesmo que meus olhos sejam inúteis para confirmar. Tento tocar o chão com um dos pés e eles balançam em falso, um dos meus chinelos é jogado, eu começo a girar.
Tento limpar rapidamente as lentes. Quando a ponta da armação toca meu rosto e aquelas tarraxinhas de plástico – e sujeira – se adequam ao meu nariz.
Lá esta outro alçapão.
Um no teto dessa vez.
O teto do céu.
Tento, em vão, fugir daquilo, mas ele parece me sugar. Balanço as pernas e os braços como se nadasse em ar puro, mas, filho da puta, voar não é como nadar aparentemente.
Sou jogado escada abaixo.
Digo, acima.
A mesma maçaroca de pernas e braços acontece, os degraus tem até o mesmo cheiro. No fundo de tudo outra saída e sou cuspido nas profundezas de um oceano.
Uma lula gigantesca luta contra um cachalote.
Parece coisa do Harryhausen. Oh céus, como é bonito e assustador.
O couro acinzentado é lanhado em cortes rasos. Os tentáculos que a abraçam tem um brilho bioluminescente azul. Os olhos dos dois animais se encaram por uma fração de segundo e eles se odeiam como devem.
Não sei quem é a presa e quem é o caçador, nem sei mesmo quem está ganhando, fico tão mesmerizado que tento soltar uma exclamação digna de três palavrões e meio.
Engulo água salgada.
E só aí meus olhos começam a arder.
A pressão chega no meu corpo e eu penso que vou morrer até ser sugado para o próximo alçapão.
De novo essa porra.
Agora os degraus tem cheiro de lavanda.
O ciclo todo se repete algumas vezes.
Vejo uma distopia controlada por monstros de respiração pesada, ritmada, e igual a todos da espécie. A pele deles é vermelha e craquelada como o chão do sertão em veraneio.
– Considere abrir os olhos agora, você vai estar voando.
Foi o que me disse a heroína que pulava de prédio em prédio.
Só que eu caí de novo noutra escadaria.
Uma série de assassinatos e tiroteios, um assassino para pegar.
Não agora, seu paspalho, agora você vai de novo noutro alçapão.
E foi assim.
Loucura.
Alçapão.
Loucura.
Alçapão.
Até que cheguei no centro de uma nuvem.
Ejetado pela portinhola eu caí aos pés de uma figura dourada.
Ela vestia imponente um escafandro. Meus olhos marejam ao reconhecer a obra prima dos irmãos Carmagnolle.
O primeiro escafandro de todos, com suas juntas desajeitadas e sua dezena de “olhos”.
Só que esse parecia melhor que a que eu vi no museu, estava polida, praticamente nova. Com vários arabescos e detalhes que a outra desprovia. Essa parecia uma versão final, com um charme tão grande que fazia a versão pela qual me apaixonei uma pálida curiosidade anatômica do século passado.
O que ela, de fato, era.
– Ah não – a voz ecoa dentro do aparato de bronze – eu deixei a merda da porta aberta de novo.
Sem nem ter ideia do porquê eu só consigo dizer:
– Perdão?!
Ele me levanta com uma desenvoltura impossível e me carrega.
– Negócio difícil isso, uma merda trabalhar se toda vez que eu esqueço a porta aberta um sonhadorzinho chato entra pra bisbilhotar.

Posted in Uncategorized | Leave a comment